quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A ÚLTIMA DÁDIVA - extraído do livro "Contos desta e doutra vida", pelo Espírito de Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Conta-se que Simão Pedro estava cansado, depois de 20 dias junto ao povo.

Banhara feridentos, alimentara mulheres e crianças esquálidas e, em vez de receber a aprovação do povo, recolhia insultos velados, aqui e ali...

Após 03 semanas consecutivas de luta, fatigara-se e preferira isolar-se entre as alcaparreiras amigas.

Por isso mesmo, no crepúsculo anilado, estava, ele só, diante das águas, a refletir....

Aproxima-se alguém, contudo...

Por mais busque esconder-se, sente-se procurado.

É o próprio Cristo.

- Que fazes, Pedro? – disse o Senhor.

Penso, Mestre.

E o dialogo prolongou-se.

- Estás triste?

- Muito triste.

- Porquê?

- Chamam-me ladrão.

- Mas se a consciência te não acusa, que tem isso?

- Sinto-me desditoso. Em nome do amor que me ensinas, alivio os enfermos e ajudo aos necessitados. Entretanto injuriam-me. Dizem por aí que furto, que exploro a confiança do povo... Ainda ontem, distribuía os velhos mantos que nos foram cedidos pela casa de Carpo, entre os doentes chegados de Jope...Alegou alguém, inconsideradamente que surrupiei a maior parte...Estou exausto, Mestre. 20 dias de multidão pesam mais que 20 anos de serviços na barca.

- Pedro, que deste aos necessitados nestes últimos dias?

- Moedas, túnicas, mantos, ungüentos, trigo e peixe...

- De onde chegaram as moedas?

- Das mãos de Joana, a mulher de Cusa.

- As túnicas?

- Da casa de Zobalan, o curtidor.

- Os mantos?

- Da residência de Carpo, o romano que decidir amparar-nos.

- Os ungüentos?

- Do lar de Zebedeu, que os fabrica.

- O trigo?

- Da seara de Zaqueu, que se lembra de nós.

- E os peixes?

- Da nossa pesca.

- Então, Pedro?

- Que devo entender, Senhor?

- Que apenas entregamos aquilo que nos foi ofertado para distribuirmos, em favor dos que necessitam. A Divina Bondade conjuga as circunstancias e confia-nos de um modo ou de outro os elementos que devamos movimentar nas obras do bem...Disseste servir em nome do Amor...

- Sim, Mestre...

- Recorda, então, que o amor não relaciona calúnia, nem conta sarcasmos.

O discípulo, entremostrando súbita renovação mental, não respondeu.

Jesus abraçou-o e disse apenas:
- Pedro, todos os bens da vida podem ser transmitidos de sítio a sítio e de mão a mão...Ninguém pode dar, em essência esse ou aquele patrimônio do mundo, senão o próprio Criador, que nos empresta os recursos por Ele gerados na Criação... E, se algo podemos dar de nós, o amor é a única dádiva que podemos fazer, sofrendo e renunciando por amar.

O apóstolo compreendeu e beijou as mãos que o tocavam de leve.

Em seguida, puseram-se ambos a falar alegremente sobre as tarefa esperadas para o dia seguinte.

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