sábado, 16 de outubro de 2010

Matrimônio


O Livro dos Espíritos - Q. 695. Será contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?
“É um progresso na marcha da Humanidade.”

PAULO AOS HEBREUS: 13:4 – “Venerado seja todos os matrimônios e o leito sem mácula, porém, aos que se dão à prostituição e aos adultérios, Deus os julgará”.

Livro: Levantar e seguir – pg. 41 – Matrimônio.
         Ninguém naturalmente será compelido a compromissos obrigatórios, diante das leis que nos regem a evolução, mas quando alguém se fixe num acordo sagrado, perante a vida, deve estar preparado a mantê-lo, até a renovação de suas experiências, nos quadros dos Desígnios de Deus.
         Entre esses compromissos da Terra, permanece o do matrimônio como um dos laços mais santos.
         Essa venerável instituição é a raiz de todas as nobres organizações que dignificam o planeta.
         Nos dias que passam, certa situação de desequilíbrio ameaça o caminho de numerosos cônjuges, nas estradas do mundo.
         Porque muitos homens hão desdenhado os seus títulos de paternidade, muitas mulheres vão desprezando os seus valores benditos de mães.
         Os lares são também os lugares santos que vão padecendo transformações.
         Entretanto, a solução essencial dos problemas humanos deve proceder do “leito sem mácula”, pilar da organização sociológica que desejais para os vossos dias.
         Numerosas criaturas acusam o matrimônio e alegam que não encontraram em sua instituição a ventura que lhes é devida.
         Todavia, se não colheram a felicidade é que necessitavam do trabalho obtido e toda oportunidade de trabalho é caminho para os júbilos do porvir.
         Lares infelizes significam cônjuges inconscientes de seus deveres, com as exceções justas.
         Tarde ou cedo, os homens e as mulheres, desviados das obrigações divinas, voltarão à simplicidade inicial para tornarem a aprender no livro da abnegação e do respeito a Deus, porque a existência não é um feriado para indisciplinas, mas um dia de trabalho santo em que o espírito deve entrar na posse de sua herança eterna, entre a bênção de luz e paz da alegria de viver”.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

POESIA DE CASTRO ALVES - EXTRAÍDA DO LIVRO PARNASO DE ALÉM TÚMULO - PSICOGRAFIA DE CHICO XAVIER



Marchemos!

Há mistérios peregrinos
No mistério dos destinos
Que nos mandam renascer:
Da luz do Criador nascemos,
Múltiplas vidas vivemos,
Para à mesma luz volver.

Buscamos na Humanidade
As verdades da Verdade,
Sedentos de paz e amor;
E em meio dos mortos-vivos
Somos míseros cativos
Da iniqüidade e da dor.

É a luta eterna e bendita,
Em que o Espírito se agita
Na trama da evolução;
Oficina onde a alma presa
Forja a luz, forja a grandeza
Da sublime perfeição.

É a gota dágua caindo
No arbusto que vai subindo,
Pleno de seiva e verdor;
O fragmento do estrume,
Que se transforma em perfume
Na corola de uma flor.

A flor que, terna, expirando,
Cai ao solo fecundando
O chão duro que produz,
Deixando um aroma leve
Na aragem que passa breve,
Nas madrugadas de luz.

É a rija bigorna, o malho,
Pelas fainas do trabalho,
A enxada fazendo o pão;
O escopro dos escultores
Transformando a pedra em flores,
Em Carraras de eleição.

É a dor que através dos anos,
Dos algozes, dos tiranos,
Anjos puríssimos faz,
Transmutando os Neros rudes
Em arautos de virtudes,
Em mensageiros de paz.

Tudo evolui, tudo sonha
Na imortal ânsia risonha
De mais subir, mais galgar;
A vida é luz, esplendor,
Deus somente é o seu amor,
O Universo é o seu altar.

Na Terra, às vezes se acendem
Radiosos faróis que esplendem
Dentro das trevas mortais;
Suas rútilas passagens
Deixam fulgores, imagens,
Em reflexos perenais.

É o sofrimento do Cristo,
Portentoso, jamais visto,
No sacrifício da cruz,
Sintetizando a piedade,
E cujo amor à Verdade
Nenhuma pena traduz.

É Sócrates e a cicuta,
É César trazendo a luta,
Tirânico e lutador;
É Cellini com sua arte,
Ou o sabre de Bonaparte,
O grande conquistador.

É Anchieta dominando,
A ensinar catequizando
O selvagem infeliz;
É a lição da humildade,
De extremosa caridade
Do pobrezinho de Assis.

Oh! bendito quem ensina,
Quem luta, quem ilumina,
Quem o bem e a luz semeia
Nas fainas do evolutir:
Terá a ventura que anseia.
Nas sendas do progredir.

Uma excelsa voz ressoa,
No Universo inteiro ecoa:
“Para a frente caminhai!
“O amor é a luz que se alcança,
“Tende fé, tende esperança,
“Para o Infinito marchai!”

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Poesia de Antero de Quental - extraída do livro Parnaso de Além Túmulo - psicografia de Francisco Cândido Xavier.

                               

 

                                 Supremo engano


Vê-se da Terra o Céu, em toda a vida,
Como um vergel azul de lírios brancos,
Onde mora a ventura, e em cujos flancos
Repousa a grande mágoa adormecida.

Céu! quanta vez minhalma entristecida
Anteviu tua paz, sob os arrancos,
Sob os golpes da dor, rijos e francos,
Na escuridão espessa e indefinida!

Não sonhei com teus deuses venturosos,
Com teus grandes olimpos majestosos,
Cheios de vida e de infinitos bens...

Antegozei, somente, em minhas dores,
A paz livre de trevas é pavores,
Do imperturbável nada que não tens!

sábado, 11 de setembro de 2010

Extraído de Livro Kardec Prossegue de Adelino da Silveira




CORTESIA COM O CHAPÉU ALHEIO


O caso tem tantos anos que não sei se o protagonista ainda vive.

O Chico foi procurado por um gerente de Banco, que trazia o Evangelho nas mãos e foi logo dizendo:

- Olha, senhor Chico, tentei seguir o Evangelho à risca e posso dizer ao senhor que não dá certo não.

- Mas o que foi que lhe aconteceu, meu irmão?

Ele abriu o Evangelho no versículo quarenta e dois, do capítulo cinco, do Evangelho de Mateus e leu: “Dá a quem te pedir e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.”

Depois continuou:

- Fui procurado por uma pessoa que estava em grande dificuldade e que me solicitou um empréstimo vultoso. Emprestei-lhe o dinheiro e a pessoa não pagou até hoje. Agora ou dou um jeito de pagar, dispondo até de minha própria casa, ou o Banco me põe na rua. Você pode me dizer por que fui tão castigado se segui fielmente o Evangelho?

O espírito de Emmanuel, então, lhe respondeu:

- Meu amigo, não estamos contra os ensinamentos de Jesus, mas Ele nos ensinou isso para quando o dinheiro for nosso.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A ÚLTIMA DÁDIVA - extraído do livro "Contos desta e doutra vida", pelo Espírito de Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Conta-se que Simão Pedro estava cansado, depois de 20 dias junto ao povo.

Banhara feridentos, alimentara mulheres e crianças esquálidas e, em vez de receber a aprovação do povo, recolhia insultos velados, aqui e ali...

Após 03 semanas consecutivas de luta, fatigara-se e preferira isolar-se entre as alcaparreiras amigas.

Por isso mesmo, no crepúsculo anilado, estava, ele só, diante das águas, a refletir....

Aproxima-se alguém, contudo...

Por mais busque esconder-se, sente-se procurado.

É o próprio Cristo.

- Que fazes, Pedro? – disse o Senhor.

Penso, Mestre.

E o dialogo prolongou-se.

- Estás triste?

- Muito triste.

- Porquê?

- Chamam-me ladrão.

- Mas se a consciência te não acusa, que tem isso?

- Sinto-me desditoso. Em nome do amor que me ensinas, alivio os enfermos e ajudo aos necessitados. Entretanto injuriam-me. Dizem por aí que furto, que exploro a confiança do povo... Ainda ontem, distribuía os velhos mantos que nos foram cedidos pela casa de Carpo, entre os doentes chegados de Jope...Alegou alguém, inconsideradamente que surrupiei a maior parte...Estou exausto, Mestre. 20 dias de multidão pesam mais que 20 anos de serviços na barca.

- Pedro, que deste aos necessitados nestes últimos dias?

- Moedas, túnicas, mantos, ungüentos, trigo e peixe...

- De onde chegaram as moedas?

- Das mãos de Joana, a mulher de Cusa.

- As túnicas?

- Da casa de Zobalan, o curtidor.

- Os mantos?

- Da residência de Carpo, o romano que decidir amparar-nos.

- Os ungüentos?

- Do lar de Zebedeu, que os fabrica.

- O trigo?

- Da seara de Zaqueu, que se lembra de nós.

- E os peixes?

- Da nossa pesca.

- Então, Pedro?

- Que devo entender, Senhor?

- Que apenas entregamos aquilo que nos foi ofertado para distribuirmos, em favor dos que necessitam. A Divina Bondade conjuga as circunstancias e confia-nos de um modo ou de outro os elementos que devamos movimentar nas obras do bem...Disseste servir em nome do Amor...

- Sim, Mestre...

- Recorda, então, que o amor não relaciona calúnia, nem conta sarcasmos.

O discípulo, entremostrando súbita renovação mental, não respondeu.

Jesus abraçou-o e disse apenas:
- Pedro, todos os bens da vida podem ser transmitidos de sítio a sítio e de mão a mão...Ninguém pode dar, em essência esse ou aquele patrimônio do mundo, senão o próprio Criador, que nos empresta os recursos por Ele gerados na Criação... E, se algo podemos dar de nós, o amor é a única dádiva que podemos fazer, sofrendo e renunciando por amar.

O apóstolo compreendeu e beijou as mãos que o tocavam de leve.

Em seguida, puseram-se ambos a falar alegremente sobre as tarefa esperadas para o dia seguinte.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mensagem extraída do Livro "O Espírito da Verdade", psicografado por Francisco Cândido Xavier.


                                                             Foto de D. Clélia Rocha                                             

                                                               Deus te abençoe

Logo após fundar o Lar “Anália Franco”, na cidade de S. Manuel, no estado de S. Paulo, viu-se D. Clélia Rocha em sérias dificuldades para mantê-lo.



Tentando angariar fundos de socorro, a abnegada senhora conduzia crianças, aqui e ali, em singelas atividades artísticas. Acordava almas. Comovia corações. E sustentava o laborioso período inicial da obra.


Desembarcando, certa noite, em pequena cidade, foi alvo de injusta manifestação antiespírita. Apupos. Gritaria. Condenações.


D. Clélia, com o auxílio de pessoas bondosas, protege as crianças. Em meio à confusão, vê que um moço robusto se aproxi-ma e, marcando-lhe a cabeça, atira-lhe uma pedra.


O golpe é violento. O sangue escorre. Mas a operosa servidora do bem procede como quem desconhece o agressor.


Medica-se depois.


Há espíritas devotados que surgem. D. Clélia demora-se por mais de uma semana, orando e servindo.


Acabava de atender a um doente em casa particular, quando entra senhora aflitíssima. É mãe. Tem o filho acamado com meningite e pede-lhe auxílio espiritual.


D. Clélia não vacila. Corre ao encontro do enfermo, e surpre-endida, encontra nele o jovem que a ferira.


Febre alta. Inconsciência. A missionária desdobra-se em des-velo.


Passes. Vigílias. Orações. Enfermagem carinhosa.


Ao fim de seis dias, o doente está salvo. Reconhece-a envergonhado e, quando a sós, beija-lhe respeitosamente as mãos e pergunta:


– A senhora me perdoa?


Ela, contudo, disse apenas, com brandura:


– Deus te abençoe, meu filho.


Mas o exemplo não ficou sem fruto, porque o moço recuperado fez-se valoroso militante da Doutrina Espírita e, ainda hoje, onde se encontra é denodado batalhador do Evangelho.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mensagem de Eurípedes Barsanulfo, extraída do Livro "O Espírito da Verdade", psicografado por Francisco Cândido Xavier;


Há criaturas que deixaram, na Terra, como único rastro da vida robusta que usufruíam na carne, o mausoléu esquecido num canto ermo de cemitério.


Nenhuma lembrança útil.

Nenhuma reminiscência em bases de fraternidade.

Nenhum ato que lhes recorde atitudes com padrões de fé.

Nenhum exemplo edificante nos currículos da existência.

Nenhuma idéia que vencesse a barreira da mediocridade.

Nenhum gesto de amor que lhes granjeasse sobre o nome o orvalho da gratidão.

A terra conservou-lhes, à força, apenas o cadáver – retalho de matéria gasta que lhes vestira o espírito e que passa a ajudar, sem querer, no adubo às ervas bravas.

Usaram os empréstimos do Pai Magnânimo exclusivamente para si mesmos, olvidando estendê-los aos companheiros de evolução e ignorando que a verdadeira alegria não vive isolada numa só alma, pois que somente viceja com reciprocidade de vibrações entre vários grupos de seres amigos.

Espíritas, muitos de nós já vivemos assim!

Entretanto, agora, os tempos são outros e as responsabilidades surgem maiores.

O Espiritismo, a rasgar-nos nas mentes acanhadas e entorpecidas largos horizontes de ideal superior, nos impele para frente, rumo aos Cimos da Perfectibilidade.

A Humanidade ativa e necessitada, a construir seu porvir de triunfos, nos conclama ao trabalho.

O espírito é um monumento vivo de Deus – o Criador Amorável. Honremos a nossa origem divina, criando o bem como chuva de bênçãos ao longo de nossas próprias pegadas.

Irmãos, sede vencedores da rotina escravizante.

Em cada dia renasce a luz de uma nova vida e com a morte somente morrem as ilusões.

O espírito deve ser conhecido por suas obras.

É necessário viver e servir.

É necessário viver, meus irmãos, e ser mais do que pó!

sábado, 28 de agosto de 2010

Extraído do Livro Kardec Prossegue - "JORGE"




Ao longo desses anos em que tenho ido a Uberaba, conheci muita gente. Gente boa, gente meio boa e gente menos boa. Algumas o tempo vai apagando lentamente, mas jamais terá força suficiente para apagar de minhas lembranças a figura encantadora que vocês vão passar a conhecer.


Numa daquelas madrugadas, quando as sessões do Chico se estendiam até ao amanhecer, vi-o pela primeira vez. Naquelas filas quase intermináveis que se formavam para a despedida ou uma última palavrinha ainda que rápida com o Chico, ele chamou-me a atenção pela alegria com que esperava a sua vez.


Vinha com passos cansados, o andar trôpego, a fisionomia abatida, mas seus olhos brilhavam à medida que se aproximava do Chico. Não raro, seu contentamento se traduzia em lágrimas serenas, mas copiosas.


Trajes pobres, descalço, pés rachados indicando que raramente teriam conhecido um par de sapatos. Calça azul, camisa verde, com muitos remendos; um paletó de casimira apertava-lhe o corpo franzino.


Pele escura, cabelos enrolados, nos lábios uma ferida. Chamava-se Jorge.

Creio que deve ter tomado poucos banhos durante toda sua vida. Quando se aproximava, seu corpo magro, sofrido e mal alimentado exalava um odor desagradável.

Em sua boca, alguns raros tocos de dentes, totalmente apodrecidos. Quando falava, seu hálito era quase insuportável. Ainda que não se quisesse, tinha-se um movimento instintivo de recuo. Quando se aproximava, tínhamos pressa em dar-lhe algum trocado para que ele fosse comprar pipoca, doce ou um refrigerante, a fim de que saísse logo de perto da gente.

Jorge morava com o irmão e a cunhada num bairro muito pobre. Uma favela, quase um cortiço.

Seu quarto era um pequeno cômodo anexado ao barraco do irmão.

Algumas telhas, pedaços de tábuas, de plásticos, folhas de latas, emolduravam o seu pequeno espaço.

O irmão e a cunhada eram bóias-frias. Jorge ficava com as crianças. Fazia-lhes o mingau, trocava-lhes os panos, assistia-os. Alma assim caridosa, acredito que sofresse maus tratos. Muitas vezes o vi com marcas no rosto e ainda hoje fico pensando se aquela ferida permanente em seu lábio inferior não seria resultante de constantes pancadas.

O Chico conversava com o ele, cinco, dez, vinte minutos. Nas primeiras vezes, pensava: Meu Deus, como é que o Chico pode perder tanto tempo com ele, quando tantas pessoas viajaram milhares de quilômetros e mal pegaram em sua mão? Por que será que ele não diminui o tempo do Jorge para dar mais atenção aos outros?

Somente mais tarde fui entender que a única pessoa capaz de parar para ouvir o Jorge era o Chico.

Em casa, ele não tinha com quem conversar; na rua, ninguém lhe dava atenção.

Quase todas as vezes em que lá estava, lá estava ele também.

Assim, por alguns anos habituei-me a ver aquele estranho personagem, que aos poucos foi-me cativando. Hoje, passados tantos anos, ao escrever estas linhas, ainda choro. “A gente corre o risco de chorar um pouco, quando se deixou cativar”, não é mesmo?

Nunca ouvimos de sua boca qualquer palavra de queixa ou revolta.

Seu diálogo com o Chico era comovente e enternecedor.

- Jorge, como vai a vida?

- Ah! Tio Chico, eu acho a vida uma beleza!

- E a viagem foi boa?

- Muito boa, Tio Chico. Eu vim olhando as flores que Deus plantou no caminho para nos alegrar.

- O que você mais gosta de olhar Jorge?

- O azul do céu, Tio Chico. Às vezes penso que o Sinhô Jesus tá me espiando.

- Depois, Jorge falava da briga dos gatos, da goteira que molhou a cama, do passarinho que estava fazendo ninho em seu telhado.

Quando pensava que tudo havia terminado, o Chico ainda dizia:

- Agora, o nosso Jorge vai declamar alguns versos.

Eu chegava até me virar na cadeira, perguntando a mim mesmo: onde é que o Chico arruma tanta paciência.

Jorge declamava um, dois, quatro versos.

- Bem, Jorge, agora para nossa despedida, declame o verso de que mais gosto.

- Qual, Tio Chico?

- Aquele da moça, Jorge.

- Ah! Tio Chico, já me lembrei, já me lembrei.

Naquelas horas, o Centro continuava lotado. As pessoas se acotovelavam, formando um grande círculo em torno da mesa.

Jorge colocava, então, o colarinho da camisa para fora, abotoava o único botão de seu surrado paletó, colocava as mãos para trás à semelhança de uma criança quando vai declamar na escola ou perante uma autoridade, olhava para ver se o estavam observando e sapecava, inflado de orgulho:



“Menina, penteia o cabelo,

joga as tranças prá cacunda.

Queira Deus que não te leve,

de domingo prá segunda.”



Quando Jorge terminava, o riso era geral. Ele também sorria. Um sorriso solto e alegre, mas ainda assim doído, pois a parte inferior de seus grossos lábios se dilatava, fazendo sangrar a ferida.

Aí ele se aproximava do Chico, que lhe dava uma pequena ajuda em dinheiro. Em todos aqueles anos, nunca consegui ver quanto era. Depois, colocava o dinheiro dentro de uma capanga, onde já havia guardado as pipocas, os doces, dando um nó na alça de pano.

Para se despedir, ele não se abraçava ao Chico, ele se jogava todo por inteiro em cima do Chico. Falava quase dentro do nariz do Chico e eu nunca o vi ter aquele recuo instintivo como eu tivera todas as vezes.

Beijava a mão do Chico, que beijava a mão e a face dele, ao que ele retribuía, beijando os dois lados da face do Chico, onde ficavam manchas de sangue deixadas pela ferida aberta em seus lábios. Nunca vi o Chico se limpar na presença dele, nem depois que ele se tivesse ido. Eu, que muitas vezes, ao chegar à casa dele, molhava um pano e limpava o que passamos a chamar carinhosamente de “o beijo do Jorge.”

Não saberia dizer quantas vezes pensei em levar um presente ao Jorge. Uma camisa...um par de sapatos... uma blusa. Infelizmente, fui adiando e o tempo passando. Acabei por não lhe levar nada.

Lembro-me disso com tristeza e as palavras do Apóstolo Paulo se fazem mais fortes nos recessos de minha alma: “Façamos o bem, enquanto temos tempo.”

Enquanto temos tempo. De repente, fica tarde demais. O Jorge desencarnou. Desencarnou numa madrugada fria. Completamente só em seu quarto. Esquecido do mundo, esquecido de todos, mas não de Deus.

Contou-me o Chico que foi este nosso irmão de pele escura, cabelos enrolados, ferida nos lábios, pés rachados, mau cheiro e mau hálito que, ao desencarnar, Nosso Senhor Jesus Cristo veio pessoalmente buscar. Entrou naquele quarto de terra batida, retirou o Jorge do corpo magro e sofrido, envolto em trapos imundos, aconchegou-o de encontro ao peito e voou com ele para o espaço, como se carregasse o mais querido dos seus filhos.

“Eis que estarei convosco até o fim dos séculos.”

“Não vos deixarei órfãos.”

Ele não faria uma promessa que não pudesse cumprir.

domingo, 22 de agosto de 2010

ESTUDAR PARA COMPREENDER


(Livro: O Livro dos Médiuns – Cap. 2:13) – “Só com o tempo e o estudo se adquire o conhecimento de qualquer ciência. Ora o Espiritismo, que entende com as mais graves questões de filosofia, com todos os ramos da ordem social, que abrange tanto o homem físico quanto o homem moral, é, em si mesmo, uma ciência, uma filosofia, que já não podem ser aprendidas em algumas horas, como nenhuma ciência.

A quem não se limite a ficar na superfície, são necessários, não algumas horas somente, mas meses e anos para lhes sondar os arcanos”.
“A explicação dos fatos que o Espiritismo admite, de suas causas e consequencias morais, forma toda uma ciência e toda uma filosofia, que reclamam estudo sério, perseverante e aprofundado”.

ESTUDO DAS CARTAS DE PAULO



INTRODUÇÃO:
Livro: Kardec Prossegue -
“Lede as cartas de Paulo e meditai. O convertido de Damasco foi o agricultor humano que conseguiu aclimatar a flor divina do Evangelho sobre o mundo. Muitas vezes foi áspero. A terra não estava amanhada e, se em alguns pontos oferecia leiras brandas e férteis, na maioria eram regiões em espinheiro e pedregulho. Paulo foi o lidador de sol a sol. Seu fervoroso amor foi a sua bússola divina. Sua paixão no mundo, iluminada por sua dedicação ao Cristo, transformou-se na base onde deveria brilhar para sempre a claridade do Cristianismo.
Conheci-o, em Roma, nos seus dias de trabalho mais rude e de provações mais acerbas. Vi-o uma vez unicamente, quando um carro de Estado transportava o senador Públio Lêntulus, ao longo da Porta Ápia, mas foi o bastante para nunca mais esquecê-lo. Um incidente fortuito levara os cavalos a uma disparada perigosa, mas um jovem cristão, atirando-se ao caminho largo, conseguiu conjurar as ameaças. Avistamos, então, um pequeno grupo, onde se encontrava a sua figura inesquecível. Trocamos algumas palavras que me deram a conhecer a sua inteireza de caráter e a grandeza de sua fé.
O fato ocorria pouco depois da trágica desencarnação de Lívia e eu trazia o espírito atormentado. As palavras de Paulo eram firmes e consoladoras. O grande convertido não conhecia a úlcera que me sangrava no coração, todavia, as suas expressões indiretas foram, imediatamente, ao fundo de minh’alma, provocando um dilúvio de emoções e de esclarecimentos.
Luzeiro da Fé viva, Paulo não pode ser olvidado em tempo algum. Seu vulto humano é o de todo homem sincero que se tocou de amor divino pelo Cordeiro de Deus. Lede-o sempre e não vos arrependereis.”
           


“Escutemos as palavras de Paulo e vivamo-las!”
 Livro: Vinha de Luz -119- Emmanuel

AOS ROMANOS

RO - 1:14: “Eu sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes”.

(Livro: Levantar e seguir – pág. 18 – Emmanuel)
Quem alcançou a felicidade de compreender o ensinamento do Cristo ou de seus emissários recebe um sagrado depósito em valores imortais.
E é justo que quem saiba se constitua em devedor de quem ignora, quem tenha se reconheça como devedor de quem não possua.

(Livro: Assim Vencerás - Cap. 19 – Emmanuel)
“Quanto mais claro se nos faça o raciocínio, mais alta a nossa dívida para com as sombras. Quanto mais sublimes as nossas noções do bem, mais imperioso o dever de socorrermos as vítimas do mal”.

(Livro: Fonte Viva –Cap. 28- Emmanuel)
“Lembra-te dos que transitam no mundo entre dificuldades maiores que as tuas.
A vida não reclama o teu sacrifício integral, em favor dos outros, mas, a beneficio de ti mesmo, não desdenhes fazer alguma coisa na extensão da felicidade comum”.


RO – 1:17: “Mas o justo viverá pela fé”

(Livro: Caminho Verdade e Vida – Cap. 23 – Emmanuel)
Antes de tudo é necessário ser criatura de Deus, em todas as circunstancias da vida.
Paulo de Tarso queria dizer que o justo será sempre fiel, viverá de modo invariável, na verdadeira fidelidade ao Pai que está nos céus.
Os dias são ridentes e tranqüilos? Tenhamos boa memória e não desdenhemos a moderação. São escuros e tristes? Confiemos em Deus, sem cuja permissão a tempestade não desabaria. Veio o abandono do mundo? O Pai jamais nos abandona. Chegaram as enfermidades, os desenganos, a ingratidão e a morte? Eles são todos bons amigos, por trazerem até nós a oportunidade de sermos justos, de vivermos pela fé, segundo as disposições sagradas do Cristianismo.


RO - 1:20: “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade se estendem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas”.

(Livro: Pão Nosso – Cap. 55 – Emmanuel)
O espetáculo da criação Universal é a mais forte de todas as manifestações contra o materialismo negativista, filho da ignorância ou da insensatez.
O olho humano não verá além do limite de sua suportação.
A criatura conviverá com os seres de que necessita no trabalho de elevação e receberá ambiente adequado aos seus imperativos de aperfeiçoamento e progresso, mas que ninguém resuma a expressão vital da esfera em que respira no que os dedos mortais são suscetíveis de apalpar.
Cumpre os deveres que te cabem e receberá os direitos que te esperam. Faze corretamente o que te pede o dia de hoje e não precisarás repetir a experiência amanhã.


RO – 2: 6: “O qual recompensará cada um segundo suas obras”

(Livro: Palavra de Vida Eterna – Cap. 101-Emmanuel)
A vida, exprimindo os desígnios do Criador, assumirá para contigo atitudes adequadas às atitudes que assumes para com ela.
Seja qual for a posição em que te situes, tens a resposta da Vida na vida que procuras.
É assim que dor ou alegria, paz ou inquietação, merecimento ou desvalia, sombra ou luz, em nosso caminho, será sempre salário moral, de acordo com as nossas próprias obras.


RO – 2:10: “Glória, porém, e honra e paz A QUALQUER que obra o bem”.

(Livro: Caminho Verdade e Vida – Cap. 42 – Emmanuel)
A malícia costuma conduzir o homem a falsas apreciações do bem, quando não parta da confissão religiosa a que se dedica, do ambiente de trabalho que lhe é próprio, da comunidade familiar em que se integra.
O egoísmo fá-lo crer que o bem completo só poderia nascer de suas mãos ou dos seus. Esse é dos característicos mais inferiores da personalidade.
O bem flui incessantemente de Deus. E Deus é Pai de todos os homens. E é através do homem bom que o Altíssimo trabalha contra o sectarismo (intolerância) que lhe transformou os filhos terrestres em combatentes contumazes, de ações estéreis e sanguinolentas.
O Pai consagrará o bem, onde quer que o bem esteja.
É indispensável não atentarmos para os indivíduos, mas, sim, observar e compreender o bem que o Supremo Senhor nos envia por intermédio deles.
Que imposta o aspecto exterior desse ou daquele homem? Que interessam a sua nacionalidade, o seu nome, a sua cor? Anotemos a mensagem de que são portadores. Se permanecem consagrados ao mal, são dignos do bem que lhes possamos fazer, mas se são bons e sinceros, no setor de serviços em que se encontram, merecem a paz e a honra de Deus”.


RO: 2:22: “Tu que pregas que não se deve furtar e furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? “

(Livro: O Evangelho Segundo o Espiritismo – 10:13 –Allan Kardec)
“a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura. Tornar-se alguém culpado daquilo que condena noutrem é abdicar dessa autoridade, é privar-se do direito de repressão. A consciência íntima, ao demais, nega respeito e submissão voluntária àquele que, investido de um poder qualquer, viola as leis e os princípios de cuja aplicação lhe cabe o encargo. Aos olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apóia no exemplo que dá do bem” .